Venha compartilhar um pouco do trabalho que realizo como historiador e professor da cidade de Cotia. Mergulhe no passado das pessoas que construiram este lugar, recorde fatos marcantes que deram identidade cultural a esta cidade.

quarta-feira, 29 de junho de 2011

PESSOA EM VÁRIOS TEMPOS

Não é desonroso fazer uma indicação de um livro, antes mesmo de terminar a sua leitura? Tendo motivos claros e emocionais, acho que não tem nada de mau. É isto que vou fazer sem nenhum pudor com o livro “Fernando Pessoa uma quase autobiografia”, escrito por José Paulo Cavalcanti Filho, que entre tantas coisas valiosas que fez na vida, é advogado e consultor da Unesco e do Banco Mundial.
O livro, com mais de setecentas páginas, delicadamente descreve a vida do poeta Fernando Pessoa em muitas vidas. Ler esta obra é gostoso demais e a vontade é que nunca termine a leitura das histórias, que ficam registradas na alma de quem lê. E, ao avançar pelos emaranhados de palavras, fica uma vontade de voltar e de ler de novo cada idéia ali impressa, descobrir novos detalhes que passaram despercebidos aos olhos. Pessoa se revela pessoas extraordinárias.
Na escola e na vida já tinha lido Fernando Pessoa, mas confesso que tinha dificuldade de entender algumas coisas escritas por ele. Agora, conhecendo suas histórias carregadas de conflitos, é que consigo entender o sentido de cada palavra escrita pelo grande poeta.
Selecionei alguns escritos da obra e da vida de Pessoa para convidar todos vocês a conhecê-lo na sua quase intimidade, sua vida, os motivos dos seus heterônimos. Vale a pena ler.

Professor Marcos Roberto Bueno Martinez


NASCIMENTO:
“Se, depois de eu morrer, quiserem escrever a minha biografia,
Não há nada mais simples
Tem só duas datas - a da minha nascença e a da minha morte.
Entre uma e outra coisa todos os dias são meus.”
“Poema Inconjuntos”, Alberto Caiero.


O PRIMEIRO VERSO:
“Eis-me aqui em Portugal/ Nas terras onde nasci/ Por muito que goste delas/ Ainda gosto mais de ti.”
Fernando Pessoa (26/7/1895)

A ALDEIA DE PESSOA:
Ó sino da minha aldeia,
Dolente na tarde calma,
Cada tua badalada
Soa dentro da minha alma.
E é tão lento o teu soar,
Tão como triste da vida,
Que já a primeira pancada
Tem o som de repetida.
Por mais que me tanjas perto
Quando passo, sempre errante
És para mim como um sonho.
Soas-me na alma distante.
A cada pancada tua,
Vibrante no céu aberto,
Sinto mais longe o passado,
Sinto a saudade mais perto.
Sem título (1911), Fernando Pessoa


ADEUS, ÁFRICA:
Ah, a frescura das manhãs em que se chega,
E a palidez das manhãs em que se parte,
Quando as nossas entranhas se arrepanham
E uma vaga sensação parecida com um medo
― O medo ancestral de se afastar e partir,
O mistério receio ancestral à chegada e ao novo –
Encolhe a pele e agonia-nos.
“Ode marítima”, Álvaro de Campos
  
REGRESSO A LISBOA:
“Outra vez te revejo,
Cidade da minha infância pavorosamente perdida...”
“Lisbon revisited” (1926), Álvaro de Campos

Continuo a leitura, saborosamente...

domingo, 26 de junho de 2011

POSTO DE GASOLINA



Arquivo: Eliana Silva


Memória: o Posto ESSOLUBE  pertencia ao Sr. Antonio Baltazar, cunhado do Sr. Luiz Silva, que adquiriu o posto  no período da Segunda Guerra Mundial. (O senhor Luiz Silva é filho do senhor Zacarias Antonio da Silva). Contextualizando a foto geograficamente, nos dias atuais, o Posto ESSOLUBE ficava quase de frente para o Hipermercado Extra, do lado esquerdo. Lembrando que a longa Rodovia Raposo Tavares separava o posto do espaço que em que seria construído o Extra.

Profº Marcos Roberto Bueno Martinez

quinta-feira, 16 de junho de 2011

A MOSCA AZUL

Depois de ouvir várias citações e comentários sobre o livro do frade dominicano Frei Beto, aguçou-me a curiosidade e a vontade de lê-lo.  Confesso que a princípio esta vontade estava carregada de preconceitos, de que poderia encontrar nas páginas deste livro receitas antigas de como combater o capitalismo e viabilizar o socialismo. Enganei-me! Frei Beto faz uma   reflexão sobre o poder  com lucidez e honestidade ideológica, dos pontos positivos e negativos do governo Lula e do Partido dos Trabalhadores, apontando o distanciamento de ambos dos movimentos populares.
Deixando de lado o determinismo e propondo nuances diversas na forma de construir uma sociedade melhor, o autor convoca-nos a resgatar os movimentos populares, esquecidos pelos que os defendiam, muitos deles picados pela “Mosca Azul”, de Machado de Assis.
O povo que Frei Beto defende são os excluídos desta sociedade de mercado insana e tema central das suas reflexões. O jornalista reflete sobre o capitalismo, o neoliberalismo, privatizações, corrupção e pobreza sem pedantismo e valorizando a solidariedade e enaltecendo a vida.  A sociedade que está ai não é a única saída que temos. Podemos construir outros jeitos de convivências harmoniosas, quase eliminando as desigualdades sociais. Adorei a leitura.
Leia o livro e faça suas reflexões. Finalizando, transcrevo a poesia “A Mosca Azul”, de Machado de Assis,  que inspirou o autor a colocá-la como titulo do livro:

A MOSCA AZUL

Era uma mosca azul, asas de ouro e granada,
Filha da China ou do Indostão.
Que entre as folhas brotou de uma rosa encarnada.
Em certa noite de verão.

E zumbia, e voava, e voava, e zumbia,
Refulgindo ao clarão do sol
E da lua — melhor do que refulgiria
Um brilhante do Grão-Mogol.

Um poleá que a viu, espantado e tristonho,
Um poleá lhe perguntou:
— "Mosca, esse refulgir, que mais parece um sonho,
Dize, quem foi que te ensinou?"

Então ela, voando e revoando, disse:
— "Eu sou a vida, eu sou a flor
Das graças, o padrão da eterna meninice,
E mais a glória, e mais o amor".

E ele deixou-se estar a contemplá-la, mudo
E tranqüilo, como um faquir,
Como alguém que ficou deslembrado de tudo,
Sem comparar, nem refletir.
Entre as asas do inseto a voltear no espaço,
Uma coisa me pareceu
Que surdia, com todo o resplendor de um paço,
Eu vi um rosto que era o seu.

Era ele, era um rei, o rei de Cachemira,
Que tinha sobre o colo nu
Um imenso colar de opala, e uma safira
Tirada ao corpo de Vixnu.

Cem mulheres em flor, cem nairas superfinas,
Aos pés dele, no liso chão,
Espreguiçam sorrindo as suas graças finas,
E todo o amor que têm lhe dão.

Mudos, graves, de pé, cem etíopes feios,
Com grandes leques de avestruz,
Refrescam-lhes de manso os aromados seios.
Voluptuosamente nus.

Vinha a glória depois; — quatorze reis vencidos,
E enfim as páreas triunfais
De trezentas nações, e os parabéns unidos
Das coroas ocidentais.

Mas o melhor de tudo é que no rosto aberto
Das mulheres e dos varões,
Como em água que deixa o fundo descoberto,
Via limpos os corações.

Então ele, estendendo a mão calosa e tosca.
Afeita a só carpintejar,
Com um gesto pegou na fulgurante mosca,
Curioso de a examinar.

Quis vê-la, quis saber a causa do mistério.
E, fechando-a na mão, sorriu
De contente, ao pensar que ali tinha um império,
E para casa se partiu.

Alvoroçado chega, examina, e parece
Que se houve nessa ocupação
Miudamente, como um homem que quisesse
Dissecar a sua ilusão.

Dissecou-a, a tal ponto, e com tal arte, que ela,
Rota, baça, nojenta, vil
Sucumbiu; e com isto esvaiu-se-lhe aquela
Visão fantástica e sutil.

Hoje quando ele aí cai, de áloe e cardamomo
Na cabeça, com ar taful
Dizem que ensandeceu e que não sabe como
Perdeu a sua mosca azul.
Machado de Assis

terça-feira, 14 de junho de 2011

QUEBRANDO TABUS


Tentei resistir para não escrever sobre assuntos polêmicos, dos quais não tenho domínio, mas não consegui. A inquietação tomou conta da minha alma.  
Assuntos delicados deveriam ser escritos por especialistas e solucionados por ações concretas de política pública, mas vou me atrever a dar minha singela opinião, mesmo correndo o risco de escrever bobagens e de fazer comentários ingênuos ou julgamentos descabidos.  Esta  água turva que está tocando meus pés, há muito tempo me incomoda, e a omissão é uma aceitação dos fatos. Vou usar da experiência de Professor em sala de aula e de Secretário da Educação para contar algumas histórias de gente que esteve envolvida com drogas ilícitas e o quanto a vida delas e de suas famílias virou de cabeça para baixo. Para resguardar as pessoas, os nomes usados aqui são fictícios.
Lembro de quando falávamos de drogas na escola, há  um tempo atrás. Era algo distante, mas  com o passar dos anos, elas se aproximaram, e mais recentemente  saltaram o muro da escola, impregnando o ambiente escolar.
O Antônio era um destes meninos diferentes dos outros alunos. Usava cabelo com cortes que chamavam a atenção, e quando quase nenhum menino usava brinco ele já tinha o seu enfeitando as orelhas. Era do tipo corajoso. Curtia Rock, usava jeans surrado e começou a fumar maconha e a usar outras drogas. Até aqui podemos tirar a seguinte conclusão, apressadamente: este jeito dele já poderia ser um sinal de que ele estivesse usando drogas. O que  precisamos é evitar tirar conclusões simplistas, para não cair no erro de criar estereótipos que não correspondem à verdade.
Este amigo, “do nada” deixou de frequentar a escola, e reapareceu no ano seguinte. Muitas perguntas e informações duvidosas surgiram entre os amigos neste período de ausência: “O Antonio está preso!”, “Está trancado dentro de casa!”,  “Virou mendigo.” – e algumas conversas mais imaginativas já anunciavam sua morte. Quando reapareceu, ele contou sua história de recuperação em uma clínica, com total apoio dos pais.
“― Cara, na primeira semana fiquei trancado em um quarto. Via baratas, ratos e outros bichos  e achei que ia ficar louco.”
Ganhamos o amigo de novo e alegria na sala de aula. Não demorou muito tempo e Antônio voltou novamente para as drogas e abandonou a escola. Antonio passou pela maconha, pela cocaína e pelo crack, e por várias internações. A última internação dele, já com quarenta e cinco anos, eu acompanhei de perto. Além das drogas ilícitas ele tinha adicionado ao seu currículo o álcool,  esta droga que é licita, mas que fez um estrago ainda maior na sua vida. Hoje ele está recuperado. Sabe da sua doença e se vigia vinte e quatro horas por dia. É importante ressaltar neste caso, que a presença dos pais foi fundamental para a sua recuperação.         
Com a “geração do crack” as histórias são mais trágicas. Num dia de aula fui tirado da sala aos gritos de alunos que anunciavam a morte de uma aluna. A Mônica tinha sido encontrada assassinada em um matagal atrás da escola, com o corpo desfigurado. Vários tiros no rosto! Ela era uma menina bonita, conversadeira, alegre e sempre disposta a ajudar os amigos, boa aluna. Mônica ultimamente andava estranha, as faltas às aulas aumentavam e aquela alegria foi trocada pelo silêncio e o rosto carrancudo. Arredia.
História curta, a da Mônica com o crack: até a morte, dois meses. Os pais não sabiam do envolvimento dela com as drogas, e para eles a filha  ainda era uma menina tranquila. A escola percebeu mudanças comportamentais, mas nada fez, pois estava despreparada para lidar com questões que fugiam do seu conhecimento. Os pais não perceberam que a filha não era mais uma menininha, e sim uma adolescente que agora precisava de muita atenção e cuidado.
A última história é a do João, que até outro dia usava calça curta e que aos poucos foi mudando, e começou a usar coca e crack. O primeiro sinal de que alguma coisa estava errada foi quando a mãe percebeu que começaram a sumir objetos em casa.  João, desde os 13 anos, continua vivendo assim, de pequenos roubos. Até quando?
Existem programas de prevenção nas escolas municipais e estaduais, e existem clínicas particulares, que cuidam de dependentes, mas que são absurdamente caras. É triste registrar, também, que o tratamento público ainda é precário e até mesmo inexistente em algumas cidades. As drogas estão batendo às nossas portas e levando nossos filhos.
Fica uma sensação de impotência.

Professor Marcos Roberto Bueno Martinez